terça-feira, 16 de abril de 2013

BIOÉTICA E RESPONSABILIDADE PELAS GERAÇÕES FUTURAS: 7 TESES

BIOÉTICA E RESPONSABILIDADE PELAS GERAÇÕES FUTURAS:
7 TESES


Ricardo Timm de Souza

  1. “Responsabilidade” não é um conceito abstrato, mas o correlato de uma exigência concreta e específica de resposta – responsa – a uma situação dada.
  2. A responsabilidade pelas gerações futuras somente pode ser plenamente compreendida e assumida a partir do assumir da responsabilidade pelas gerações presentes, onde o presente se encontra na riqueza semântica da palavra “pelas” – são as gerações presentes que têm de assumir responsabilidade por si mesmas e pelas futuras.
  3. Neste sentido, o presente e o futuro se encontram na articulação do agora decisivo, no qual as decisões pela solução das injustiças do presente e pela viabilidade do futuro enviam a uma concepção vital (bio)ética que não pode deixar nenhuma instância de clamor por justiça sem resposta, segundo a sugestão de Derrida: uma obsessão pela justiça.
  4. A bioética se configura numa instância de percepção da realidade na qual estas demandas são especialmente agudas.
  5. Os temas do encontro, aquecimento global e AIDS, tocam-se em suas raízes de injustiça efetivada de um modo não facilmente detectável por uma análise fragmentada ou tecnocrática. Que estes temas refiram a uma realidade maior, anterior, é uma prova a mais de que não existe questão ética que não seja uma questão ecológica e social e vice-versa.
  6. A bioética exige sua reescrita a partir da ética como fundamento ou, o que dá na mesma, na ansiedade obsessiva pela superação das injustiças em todos os níveis humanos e ecológicos.
  7. A responsabilidade maior pelas gerações futuras é, então, o assumir cabal da responsabilidade pelas gerações presentes, atores e sujeitos cuja ação e responsabilização pela sustentabilidade do futuro definirá a permanência da vida na terra; os argumentos que assomam neste momento de gravidade não se destilam  desde a sutileza lógica de cérebros treinados, mas desde as exigências da concretude da alteridade – a natureza, o outro que sofre – que exige resposta.

Fundamentos ético-filosóficos do encontro res(ins)taurativo

Fundamentos ético-filosóficos do encontro res(ins)taurativo[1]



Ricardo Timm de Souza




I - Introdução

            O presente texto, muito embora breve e essencialmente sintético, pretende evidenciar em suas linhas e entrelinhas o resultado de reflexões que se sucedem desde há muito tempo e que assumem, precisamente aqui, o status de esboço provisório de uma questão por nós considerada central no que tange ao que se se compreende normalmente, nacional e internacionalmente, como “justiça restaurativa”[2]. Baseia-se, fundamentalmente, em duas hipóteses, que serão posteriormente algo mais explicitadas e desdobradas argumentativamente: em primeiro lugar, que a idéia geral, no sentido coloquial da palavra “abstrata”, de “encontro”, tem o potencial de neutralizar o efetivo acontecimento ou evento de um encontro real – e, ao reverso, que um encontro real subverte toda e qualquer lógica prévia ao seu acontecer que pudesse ser antevista segundo moldes teoréticos – ; e, em segundo lugar, que um tal encontro real, em sua dimensão ético-criadora mais profunda – mais radicalinstaura como que um novum na cadeia dos eventos humanos, obrigando a inteligência a compreendê-lo desde parâmetros, por conseqüência, também radicalmente diversos daqueles usualmente utilizados para abordar e definir a própria noção de realidade.


II – Desconstruindo a formalização do Encontro: o Encontro real para além de sua idéia

            A idéia de um “encontro teórico”, ou seja, meramente formal, entre dois seres humanos, porta evidentemente desde sempre uma contradição em seus próprios termos. A concretude do ser humano não pode ser abstraída em uma idéia geral de “ser humano geral-abstrato” que se substituísse, em qualquer hipótese, à singularidade absoluta que, exatamente, torna cada ser humano inconfundível relativamente a cada outro. O ser humano é sua vida e sua expressão circunscritas nos limites estritos de sua silhueta espacial-temporal que o distingue de qualquer generalidade possível pela inconfundibilidade do espaço e do tempo que vive e em que vive, e isso relativamente a qualquer outra pessoa, entidade ou idéia. Assim como está além do que nos é possível anular enquanto singularidade, na condição que é a sua própria singularidade, irredutível a qualquer ordem de minha re-presentação, ou seja, sua Alteridade em relação ao poder de meu intelecto, por mais potente que esse seja – por mais que simpatizemos com alguém, não sentiremos nunca os seus sentimentos, pois são seus e de mais ninguém; por mais que empatizemos com a dor que alguém possa sentir, não sentiremos sua dor, pois ela é sua e de mais ninguém –, também não há razão poderosa que, tendo em nosso intelecto sua sede, possa se apropriar – tornar próprio o Outro –, que consiga reduzi-lo a uma função de um jogo social maior, por grandioso que este seja. A capacidade de quem pensa é enorme, mas a unicidade do outro é incomensurável, por estar além de qualquer idéia de medida como determinação ou mensuração como ato de vontade. Por isso, podemos afirmar sem hesitação que a dor ou a alegria do Outro são infinitas, pois negam a finitude que meu intelecto lhes poderia apor – já que tal finitude tem origem em mim, e não no que, em não sendo eu, não se resolve absolutamente na interioridade da intriga de meu “Eu”, por poderoso que este seja.
            Resta, portanto, a questão óbvia: como é possível, então, que possamos falar “do(s)” outro(s), e não apenas “com” o(s) outro(s)? Aguçando a questão, deveríamos perguntar: não somos antes treinados a falar “sobre” outros em vez de falar “com” outros?
            A resposta é evidente. Especialmente a partir da Modernidade, com a complexificação acelerada das sociedades e a organização burocrática das novas formas de relações sociais, no advento da “era do indivíduo”, processa-se uma metamorfose notável. Lançando mão das mais antigas e fundadoras tensões da reflexão filosófica, aquelas que têm a ver com a relação entre o particular e o universal, entre a coisa e o conceito, entre o real e o ideal, ocorre um movimento maciço de formalização da realidade, de universalização argumentativa de conceitos e categorias, ao qual as singularidades inconfundíveis dos seres humanos particulares obviamente não escapam; antes são subsumidas na nova ordenação administrativa do mundo. A culminância de um tal projeto e realização se dá em momento próximo de nós; idéias abstratas substituem realidades concretas; se tal chegou ao paroxismo, por exemplo, à época dos extermínios nazistas (não esqueçamos o zelo com o qual cada prisioneiro era tatuado com um número de identificação que substituía qualquer outra forma de identificação, e era por sua vez, numa paródia grotesca com a inconfundibilidade do singular em que cada prisioneiro se constituía, inconfundível com qualquer outro número), tal não significa que esse modo de conceber o mundo não esteja absolutamente presente na contemporaneidade mais próxima. Cada um faticamente é o número de sua identidade civil, a simbólica de seu papel social, o seu poder de consumo, muito antes e muito mais que a carnalidade singular, seu “corpo próprio”, que constitui seu ser real e o distingue de qualquer outro. Pois números, simbólicas, mesmo papéis sociais são intercambiáveis – apenas a carnalidade do corpo vivo e separado de todos os outros não é.
            Tal estado de coisas, além de, primariamente, servir e referendar lógicas de poder as mais diversas, pela metamorfose – um decaimento – de uma racionalidade prudente em uma razão instrumental, devasta a tessitura social baseada em encontros reais; esses são, agora, desprezível questão privada ou espaço de projeção de poder – ou ambas as coisas, agora logicamente complementares (Kafka). Ocorre, portanto, o que a Filosofia, ao longo de milênios, sempre anteviu e temeu: a substituição da coisa por seu conceito (Adorno), do real pelo ideal(izado), do Outro concreto pelo Mesmo poderoso (Levinas), da multiplicidade convivente pela unidade violenta e organizadora (Rosenzweig), da diferença real pela diferença formal (Derrida).
            Dado que tal situação se constitui, por definição, como destrutivamente anti-humana (para não entrarmos no tema correlato, mas sumamente importante de, por se constituir exatamente anti-humana, se constituir também e necessariamente anti-ecológica) – na medida em que solapa aquilo que caracteriza o humano para além da mera idéia de humanidade, a singularidade inconfundível[3] – ela deve ser radicalmente desconstruída, ou seja, deve-se reduzi-la a seus elementos inteligivelmente mais primários, para que se possa reverter a opacidade maciça de que lança mão para se legitimar e recriar. Tal constitui, hoje, a tarefa ética por excelência[4].
            As derivas e possibilidades de uma tal tarefa são ilimitadas, porém aqui nos interessa especificamente a dimensão de reconstrução do encontro real pela falência brusca e definitiva de uma certa modalidade de encontro formal. A referência é especificamente ao que se entende por em sentido lato por “encontro restaurativo” como alternativa a modalidades tradicionais e formalizadas de solução de conflitos, especialmente, em sua dimensão pedagógica, na percepção do que empiricamente se verifica no âmbito de adolescentes e jovens[5], sem, porém, exclusão em princípio de grupo ou faixa etária alguma.
            A questão a ser aqui ressaltada é: por que exatamente se tem uma expressão altamente privilegiada, entre as mais adequadas, para a comprovação estrita da desconstituição de uma formalidade enrijecida? Não se trata, naturalmente, de uma escolha arbitrária ou incidental. O encontro restaurativo apresenta ao menos duas características que o elegem á posição de dimensão diferenciada da reconstituição ético-fática da idéia de encontro entre singularidades.
            Por um lado, o ato infracional que motivará posteriormente o encontro significa primariamente uma ruptura. Ruptura em múltiplos sentidos: ruptura de uma ordem social tacitamente estabelecida ou presumida; ruptura de uma confiança abstrata igualmente presumida; ruptura de uma intimidade agredida, antes pretensamente inviolável; ruptura psíquica, no âmbito do infrator, de regras morais bem ou mal internalizadas. Essa ruptura, que significa, em última análise, o rompimento de uma expectativa de continuidade, de obviedade, instala a crise no entremeio da relação inter-humana.
            Por outro lado, como derivação de sua própria concretude, essa ruptura não é teórica em nenhum sentido desse termo, ainda que rompa com todas as teorias de convivência, paz social, ordem jurídica e tudo o mais que se alicerça em uma determinada concepção teórico-formalizada de mundo que atribui aos atos reais a qualidade de desvios em relação à perfeição formal da idealidade convivencial.


III – Da justiça “restaurativa” à justiça “instaurativa”

            O significado efetivo de algo que, desde um certo estilo de razão calculadora seria tido por impossível e que, não obstante, muitas vezes surpreenderá pela fecundidade de significados que porta – um “encontro restaurativo” bem conduzido e que possa ser considerado bem sucedido– indicia de modo inegável um fato decisivo para qualquer reflexão posterior: a entrada em crise[6] de uma determinada organização mental do que seja o mundo das relações formalizadas e a sua efetiva existência no tempo. Percebe-se que tais relações formalizadas não se sustentam em si mesmas e se constituem, a rigor, como uma espécie de reflexos idealizados de situações idealizadas. A concretude extrema que um encontro entre humanos significou nesse caso – e sempre deveria significar – gerou, desde si mesma, na complexidade de seu acontecer, a criação de algo que nunca existira antes: um encontro tão ético quanto possível – ou seja, tão humano quanto possível – entre (aqui considerados á guisa de exemplo) dois seres humanos cujos elos formais que pretensamente os ligariam no interior de uma sociedade juridicamente organizada se provam fátuos ou faticamente inexistentes. Um encontro que mereça tal nome, no âmbito do humano, oferece ao que o acompanha a inusitada percepção de que algo se cria, ou seja, a rigor, que o próprio encontro se cria – a si mesmo. A proximidade lógico-administrativa de serem ambos os envolvidos membros, por exemplo, de um mesmo Estado e, por decorrência, de pretensamente conviverem em uma mesma sociedade, sob uma mesma Constituição, teve que, nesse caso particular, ser levada á insustentabilidade de suas próprias premissas tacitamente aceitas – pela ocorrência do ato infracional – para que se estabelecesse, na temporalidade do encontro restaurativo que acontece, a proximidade real entre humanos para além de qualquer formalização e classificação.
Trata-se, aliás (e tal não é questão secundária do ponto de vista da presente análise), de um paradoxo altamente instrutivo. É porque as pessoas envolvidas, por circunstâncias que aqui não se podem analisar mas que serão sempre diversas, participaram de um evento comum a ambas que as reduziu à nudez humana que propriamente as constitui, pelo ato infracional – a vítima, vitimizada pelo ato e suas conseqüências; o autor, capturado devido ao seu ato e sofrendo suas conseqüências –, que a formalidade fátua de elos sociais pré-existentes e pretensamente suficientes se tornou cabal, ou seja, foi desmascarada em sua pretensão de totalidade racional no interior da qual as pessoas, decaídas em meros “indivíduos”, números ou mônadas psíquicas, manteriam elos umas com as outras ainda que, faticamente, tais elos fossem inexistentes ou, ao menos, irrelevantes para a humanidade de cada um. O autor do ato não existia qua humano, para a vítima: apenas como indiferença numa espécie de (contradictio in adjecto) “convivência indiferente”; a vítima não existia para o autor até então qua humana, mas, no sentido da gênese do ato realizado que a transformou realmente em vítima, como alvo potencial de sua ação, no caso, de seu “ato infracional”.
            Essa é a razão pela qual podemos caracterizar o encontro restaurativo como, essencialmente, um encontro instaurativo: instaura elos que previamente existiam apenas em uma idealidade fraca e a rigor impalpável e, portanto, os cria faticamente, independentemente de tudo o que se presumia existente em termos de elos sociais em termos seja de teorias socio-jurídico-políticas, seja do senso comum. É apenas no encontro humano propriamente dito, onde o encontro em si assume tal fecundidade de significados, que não apenas se pode, mas se deve considerá-lo como uma instância humana de criação por excelência, que se percebe a possibilidade de alcance ético de um tal encontro – a saber, permitir que os envolvido se recriem a si mesmos, na consecução de uma pertença ética antes absolutamente estranha à sua “convivência indiferente”, pois nela inexistente e não prevista.
            Em suma, não se trata – ou, definitivamente, não se trata apenas – de restaurar algo presumivelmente rompido; trata-se, antes, de instaurar o previamente nunca acontecido. Ambos os autores (mais que meros atores), que se viam, porém não se enxergavam na teia social comum que habitavam, na atmosfera de in-diferença que os caracterizava como habitantes de um universo social no qual a indiferença é mote, pela transformação obsessiva e instrumental da qualidade (singularidade) em quantidade, exatamente pela diferença que o conflito ocasionou de uma forma que nenhuma racionalidade instrumental pode anular, agora se encontram – diferente concreto que encontra diferente concreto, e não cópia, reduplicação ou projeção de si mesmo – no sentido propriamente humano desse termo, de um modo que nunca lhes seria possível conceber sem a experiência do encontro real que se seguiu à experiência do trauma. Instaurou-se algo que nunca antes havia existido sobre a terra.


IV – À guisa de conclusão – do Encontro à Justiça como fundamento da realidade

            Em um mundo como o nosso, no qual uma patética pedagogia ensina e relembra constantemente, com a finalidade de manter as mônadas psíquicas, falsamente denominadas “sujeitos”, prudentemente distanciadas umas das outras, que “minha liberdade acaba onde começa a do outro”, é extremamente salutar que se diga em bom e articulado tom exatamente o inverso, como faz, por exemplo, o filósofo lituano-francês E. Levinas: “minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro”. Não somos fragmentos aleatórios de poeira cósmica ou mônadas racionais à Leibniz, mas, se merecemos o nome de humanos, somos seres medularmente relacionais. É na relação – ou como conseqüência de relação – que tudo o que nos é significativo acontece – incluindo nosso próprio nascimento.
            Tal leva a uma concepção de Justiça totalmente diversa – uma Justiça não como equilíbrio, mas como construção da realidade ética, ou seja, humana. Nesse sentido, segundo essa tradição de pensamento, a justiça não se baseia na determinação livre e racional de liberdades que interagem ao procurarem criar as possibilidades de um mundo mais justo. Antes de se pensar em justiça, é necessário que se pense as condições para sua efetivação, e estas condições não estão simplesmente no exercício livre da liberdade, ou no exercício da liberdade via contrato, ou outro. A justiça – como tampouco uma teoria da justiça – não decorre da mútua interação entre liberdades previamente dadas, de forma contratualista ou outra, pois a liberdade como tal, em seu desdobramento possível, não é um pressuposto suficiente para uma teoria da justiça. Antes de chegar à possibilidade de pensar uma teoria da justiça, faz-se necessário levar a sério a tensão que habita o próprio interior da liberdade pensada ou exercida – tensão entre sua vocação simultânea à espontaneidade e à arbitrariedade. Esta tensão não é normalmente levada às suas últimas conseqüências porque se tem como evidente o fato de que a liberdade, na modernidade, só é compreendida como positividade – visão que as teorias liberais sempre se apressaram a referendar.
            Significaria isto que Levinas e autores que pensam desde sua tradição ou correlatamente se constituem em apologetas de alguma situação de não-liberdade? Evidentemente que não. A questão – seja aqui bem ressaltado – é investigar até que ponto liberdade enquanto auto-legitimação de um determinado exercício livre de si mesma e justiça enquanto efetivação não simplesmente teórica ou racional de uma “lógica” justa, mas fundamento da realidade humana, são mutuamente compatíveis. Portanto, liberdade sim; mas liberdade lúcida, que se conheça o suficiente para saber até que ponto seu exercício pode ser violento, arbitrário e destruidor: liberdade estruturalmente constituída de moralidade, que lhe é anterior e que legitima o livre exercício da eticidade: no dizer de Levinas, liberdade investida.
            A justiça se propõe assim não como uma dimensão de realidade a ser simplesmente teorizada desde a facticidade mesma da realidade, mas, antes, como uma condição fundamental para que a realidade possa ser considerada propriamente real. A justiça, ou seja, a ética realizada e em realização desde o Encontro instaurativo da humanidade do humano, é a estrutura basilar do sentido humano e cosmológico, sem a qual a realidade não é, a rigor, segundo esta linha de pensamento, nem ao menos pensável. A justiça, portanto, não é nesse sentido concebida como uma questão teorética, nem ao menos como uma questão existencial, mas como uma questão fundacional, sem a qual as restantes determinações do mundo e da realidade não podem ser propriamente concebidas enquanto questões radicalmente humanas, pelo menos não em sua plenitude.
            A elucidação teórica detalhada dos argumentos implícitos nas presentes afirmações é absolutamente inviável nos limites do presente texto, mas não é inviável a percepção clara de que “tudo começa com um encontro” e os encontros res(ins)taurativos aí estão para nos relembrar esse fato. Desta forma, segundo este modelo de pensamento que se estrutura apenas na medida do trauma que o encontro com a Alteridade significa, antes de se pensar a justiça enquanto possibilidade da realidade, há que, inversamente, pensar a realidade enquanto possibilidade da justiça. “Justiça” é a efetivação de si mesma e, decorrentemente, da realidade enquanto tal, apenas e na medida enquanto o encontro com a Alteridade radical se efetiva no tempo – tempo do encontro instaurativo – que nós mesmos somos e em que cada instante é um instante de decisão – decisão pela justiça ou pela injustiça. Tal, nada mais e nada menos, significaria desencontrar-se da tautologia, da formalização do mundo, da quantificação violenta das singularidades, e levar o tempo e o Outro realmente a sério.


Referências bibliográficas


ADORNO, Theodor. Palavras e sinaismodelos críticos II, Petrópolis: Vozes, 1995.
______, Minima moralia, São Paulo: Ática, 1993.
______, Negative Dialektik, Frankfurt a. M: Suhrkamp. (Dialética Negativa, Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2009).
______, Notas de Literatura I, São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.
______, Ästhetische Theorie, Frankfurt a. M.: Suhrkamp (Teoria estética, São Paulo, Martins Fontes).
______, Prismas, São Paulo: Ática, 1998.
______, Jargon der Eigentlichkeit, Frankfurt a. M: Suhrkamp, 1987.
ADORNO, Theodor – HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento, Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985.
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacero poder soberano e a vida nua I, Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004.
______, Estado de Exceção, São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.
______, Profanações, São Paulo: Boitempo Editorial, 2007.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
BENJAMIN, W. Obras Escolhidas, São Paulo: Brasiliense, 1985.
______, “Rua de mão única”, in: Obras Escolhidas II, São Paulo: Brasiliense, 1987.
BENSUSSAN, Gérard. Ética e experiência: a política em Levinas, Passo Fundo: Editora do IFIBE, 2009.
______, O tempo messiânico – tempo histórico e tempo vivido, São Leopoldo: Nova Harmonia, 2009.
BONZI, Patrícia – FUENTES, Juan José (Eds.), El énfasis del infinitoesbozos y perspectivas em torno al pensamiento de Emmanuel Levinas, Barcelona/Santiago de Chile: Anthropos Editorial/Universidad de Chile, 2009.
DERRIDA, J. Adeus a Emmanuel Levinas, São Paulo: Editora Perspectiva, 2004.
______, Da hospitalidade, São Paulo: Escuta, 2003.
______, “Force de Loi: le ‘fondement mystique de l’autorité’”, in: Deconstruction and the possibility of justice, Cardozo Law Review, Vol. 11, july/aug. 1990, n.5-6.
______, Margens - da filosofia, Campinas: Papirus, 1991.
______, A escritura e a diferença, São Paulo: Perspectiva, 2008.
______, Força da Lei, São Paulo: Martins Fontes, 2007.
DREIZIK, Pablo. (Org.) La memoria de las cenizas, Buenos Aires, Ed. Patrimonio Argentino, 2001.
EIDAM, H. – HERMENAU, F. – STEDEROTH, D. (Orgs. ), Kritik und Praxis – Zur Problematik menschlicher Emanzipation, Lüneburg: Zu Klampen, 1998.
KONZEN, Afonso A. Justiça restaurativa e ato infracional – desvelando sentidos no itinerário da Alteridade, Porto Alegre: L. Do Advogado, 2007.
LETZKUS, Alwin. Dekonstruktion und ethische PassionDenken des Anderen nach Jacques Derrida und Emmanuel Levinas, München: Fink, 2002.
LEVINAS, Emmanuel. De l’Évasion, Paris: Fata Morgana, 1982.
______, Totalité et Infini – essai sur l’extériorité, Den Haag: Martinus Nijhoff, 1961.
______, Autrement qu’être ou au-delà de l’essence, Den Haag: Martinus Nijhoff, 1974.
______, Entre Nós - Ensaios sobre a Alteridade, Petrópolis: Vozes, 1997.
______, Humanismo do outro homem, Petrópolis: Vozes, 1995.
______, Difficile liberté - Essais sur le judaïsme, Paris: Albin Michel, 1976.
______, Le temps et l’autre, Paris: Quadrige/P.U.F., 1994.
______, De Deus que vem à idéia, Petrópolis: Vozes, 2002.
______, Quatro leituras talmúdicas, São Paulo, Perspectiva, 2003.
______, Da existência ao existente, Campinas, Papirus, 1998.
______, Do sagrado ao santocinco novas leituras talmúdicas, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.
______, “La Philosophie et l'Eveil”, in: Etudes philosophiques 3(1977).
______, “La réalité et son ombre”, in: Les temps modernes, n. 3, 1948.
______, “Totalité et totalisation”, in: Encyclopédie Universelle, Paris, 1973, V. 16, p. 192-194.
MATE, Reyes. Memórias de Auschwitz atualidade e política, São Leopoldo: Nova Harmonia, 2005.
______, La razón de los vencidos, Barcelona, Anthropos, 1991.
NANCY, Jean-Luc. La representación prohibida, Buenos Aires: Amorrortu Editores, 2006.
NESTROVSKI, Arthur – SELIGMANN-SILVA, Márcio (Orgs.), Catástrofe e Representação, São Paulo: Escuta, 2000.
ROSENZWEIG, Franz. Das Büchlein des gesunden und kranken Menschenverstandes, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1992.
______, Zweistromland - Kleinere Schriften zu Glauben und Denken (Gesammelte Schriften III), Dordrecht/Boston/Lancaster, 1984.
______, Der Stern der Erlösung, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996.
RUIZ, Castor Bartolomé. Os labirintos do podero poder (do) simbólico e os modos de subjetivação, Porto Alegre: Escritos Editora, 2004.
RUIZ, Castor Bartolomé (Org.), Justiça e memória – para uma crítica ética da violência, São Leopoldo: Editora da UNISINOS, 2009.
SCHMIED-KOWARZIK, Wolfdietrich. Práxis e Responsabilidade, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.
SCHWEIDSON, Edelyn (Org.), Memória e cinzas  vozes do silêncio, São Paulo: Perspectiva, 2009.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. História, memória, literaturao testemunho na Era das catástrofes, Campinas: Ed. UNICAMP, 2003.
______, O local da diferença, São Paulo: Editora 34, 2005.
SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade & Desagregação – sobre as fronteiras do pensamento e suas alternativas, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
______, O tempo e a Máquina do Tempo – estudos de filosofia e pós-modernidade, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.
______, Sujeito, ética e história – Levinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental, Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.
______, Existência em Decisão - uma introdução ao pensamento de Franz Rosenzweig, São Paulo: Perspectiva, 1999.
______, Sentido e AlteridadeDez ensaios sobre o pensamento de E. Levinas, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000 (2. Edição e-book: EDIPUCRS, 2010).
______, Metamorfose e Extinçãosobre Kafka e a patologia do tempo, Caxias do Sul: EDUCS, 2000.
______, Ainda além do medofilosofia e antropologia do preconceito, Porto Alegre: DaCasa-Palmarinca, 2002.
______, Sobre a construção do sentido – o pensar e o agir entre a vida e a filosofia, São Paulo: Perspectiva, 2003.
______, Responsabilidade Social – uma introdução à Ética Política para o Brasil do século XXI, Porto Alegre: Evangraf, 2003.
______, Razões plurais – itinerários da racionalidade ética no século XX: Adorno, Bergson, Derrida, Levinas, Rosenzweig, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
______, Fontes do humanismo latinoA condição humana no pensamento filosófico moderno e contemporâneo, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
______, Ética como fundamento – uma introdução à ética contemporânea, São Leopoldo, Editora Nova Harmonia, 2004.
______, Sentidos do Infinito – a categoria de “Infinito” nas origens da racionalidade ocidental, dos pré-socráticos a Hegel, Caxias do Sul: EDUCS, 2005.
______, Em torno à Diferençaaventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008.
______, Justiça em seus termosdignidade humana, dignidade do mundo, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.
______, Adorno & Kafkaparadoxos do singular, Passo Fundo: Editora do IFIBE, 2010.
______, Kafka, a Justiça, o Veredicto e a Colônia Penal, São Paulo: Perspectiva, 2011.
______, Levinas e a ancestralidade do Malpor uma crítica à violência biopolítica, Porto Alegre: EDIPUCRS, no prelo.
______, “’Ecos das vozes que emudeceram’: memória ética como memória primeira”, in: RUIZ, Castor Bartolomé (Org.). Justiça e memória – para uma crítica ética da violência, São Leopoldo: Editora da UNISINOS, 2009.
______, “O corpo do tempo: um exercício fenomenológico”, in: SOUZA, R. T. – OLIVEIRA, N. F. (Orgs), Fenomenologia hoje II – significado e linguagem, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002, p. 439-450.
______, “Da metamorfose da intencionalidade à metamorfose do sentido – uma leitura de Levinas”. In: LOPARIC, Zeljko; WALTON, Roberto. (Orgs.). Phenomenology 2005Selected Essays from Latin America. 1 ed. Bucarest: Zeta Books, 2007, v. 2.
______, “O nervo exposto – por uma crítica da ideia de razão desde a racionalidade ética”, in: GAUER, R. M. C. (Org.), Criminologia e sistemas jurídico-penais contemporâneos II, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010.
______, “Levinas”, in: PECORARO, Rossano (Org.), Os filósofosclássicos da filosofia, Rio de Janeiro: Petrópolis/PUC-Rio, Vol. III, 2009.
______, “Rosenzweig entre a História e o Tempo – sentido crítico de Hegel e o Estado”, in: ROSENZWEIG, Franz. Hegel e o Estado, São Paulo: Perspectiva, 2008, p. 21-39.
______, “A vida opaca – meditações sobre a singularidade fracassada”, in: OLIVEIRA, N. F. – SOUZA, D. G. (Orgs.), Hermenêutica e filosofia primeira, Ijuí, Editora da UNIJUÍ, 2006, p. 461-469.
______, “Justiça, liberdade e alteridade ética. Sobre a questão da radicalidade da justiça desde o pensamento de E. Levinas”, in: VERITAS – Revista de Filosofia, Vol. 46 n.2, junho 2001, p. 265-274.
______, “Das neue Denken und die Ermöglichung des Friedens – Franz Rosenzweig und Emmanuel Levinas im Zentrum der Ereignisse des 20. Jahrhunderts”, in: SCHMIED-KOWARZIK, Wolfdietrich (Org.), Franz Rosenzweig “neues Denken”, Vol. I, Freiburg/München: Alber, 2006, p. 583-595.
______, “Três teses sobra a violência”, in Civitas – Revista de Ciências Sociais, PUCRS, ano 1, nº 2, dez/2001, p. 7-10.
______, “A dignidade da pessoa humana: uma visão contemporânea”, in: Filosofazer, Passo Fundo, ano XIV, n. 26, p. 7-36, 2005-II.
______, “Nós e os outros. Sobre a questão do humanismo, hoje”, in: PAVIANI, Jayme – DAL RI Jr, Arno (Orgs.), Globalização e humanismo latino, Porto Alegre, EDIPUCRS, 2000, p. 203-212.
______, “Por uma estética antropológica desde a ética da alteridade: do ‘estado de exceção’ da violência sem memória ao ‘estado de exceção’ da excepcionalidade do concreto”, in: VERITAS – Revista de Filosofia, v. 51, n. 2, junho 2006, p. 129-139.
______, “Fenomenologia e metafenomenologia: substituição e sentido – sobre o tema da ‘substituição’ no pensamento ético de Levinas”, in: SOUZA, Ricardo. Timm de. – OLIVEIRA, Nythamar Fernandes de. (Orgs.) Fenomenologia hojeexistência, ser e sentido no alvorecer do século XXI, Porto Alegre, EDIPUCRS, 2001.
______, “O corpo do tempo – um exercício fenomenológico”, in: SOUZA, Ricardo. Timm de. – OLIVEIRA, Nythamar Fernandes de. (Orgs.), Fenomenologia Hoje IIsignificado e linguagem, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.
______, “O pensamento de Levinas e a filosofia política: um estudo histórico-filosófico”, in: SOUZA, Ricardo Timm de. – OLIVEIRA, Nythamar Fernandes de. (Orgs.) Fenomenologia hoje IIIbioética, biotecnologia, biopolítica, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.
SOUZA, Ricardo Timm de. – FABRI, Marcelo. – FARIAS, André Brayner de. (Orgs.) Alteridade e Ética, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.
SUSIN, Luiz Carlos. O homem messiânico. Uma introdução ao pensamento de Emmanuel Levinas, Porto Alegre – Petrópolis, E.S.T.-Vozes, 1983.
SUSIN, Luiz Carlos et alii (Orgs.). Éticas em DiálogoLevinas e o pensamento contemporâneo: questões e interfaces, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
TIBURI, Márcia. Filosofia cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita, Porto Alegre: Escritos Editora, 2004.
TIBURI, Márcia – KEIL, Ivete (Orgs.), O corpo torturado, Porto Alegre: Escritos Editora, 2004.
TIBURI, Márcia – DUARTE, Rodrigo (Orgs.), Seis leituras sobre a Dialética do Esclarecimento, Ijuí: Editora da UNIJUÍ, 2009.
TRAVERSO, Enzo. “Reflexiones sobre el exílio y la violência em el siglo XX”, in: Espacios de Crítica y Producción n. 26, octobre-noviembre 2000, Publicaciones de la Facultad de Filosofia y Letras – Universidad de Buenos Aires, p. 3-11.
VIRILIO, Paul. Velocidade e política, São Paulo: Estação Liberdade, 1996.
WIEMER, Thomas. Die Passion des Sagens. Zur Deutung der Sprache bei Emmanuel Levinas und ihrer Realisierung im philosophischen Diskurs, Freiburg/München: Karl Alber, 1988.



[1] Versão original de texto de mesmo título publicado in: PETRUCCI, A. C. C. et alii, Justiça juvenil restaurativa na comunidade: uma experiência possível, Porto Alegre: Procuradoria Geral da Justiça – Assessoria de imagem Institucional, 2012
[2] Para referências gerais e específicas do presente texto, inclusive notas, cf. “Referências bibliográficas”, ao fim do mesmo. Dadas as limitações do presente escrito, aqui nos atemos estritamente à questão filosófica de fundo, apenas em suas linhas mais amplas, da temática em geral.
[3] Cf. SOUZA, Ricardo Timm de. Justiça em seus termosdignidade humana, dignidade do mundo.
[4] Cf. SOUZA, R. T. “O nervo exposto – por uma crítica da ideia de razão desde a racionalidade ética”; SOUZA, R. T. Em torno à Diferençaaventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea; SOUZA, R. T. “A vida opaca – meditações sobre a singularidade fracassada”; SOUZA, R. T. Justiça em seus termosdignidade humana, dignidade do mundo, etc..
[5] Cf. KONZEN, A. A., Justiça restaurativa e ato infracional.
[6] Cf. SOUZA, R. T. Sobra a construção do sentido.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

ESCREVER COMO ATO ÉTICO

ESCREVER COMO ATO ÉTICO


Ricardo Timm de Souza*




Escrever é entrar na afirmação da solidão onde o fascínio ameaça.
Maurice BLANCHOT


I

            Quem escreve com vigor e pertinácia, perseverança e ansiedade, sinceridade e energia concentrada, cuidado extremo e extrema coragem, despossuindo-se no ato de se entregar, pela escrita, à imponderabilidade de um destino aberto, esse sulca pequenas mensagens de estranha esperança, que encerra então delicadamente nas garrafas que serão lançadas no mar da incerteza. A verdadeira escrita é o mais pungente testemunho de deflação narcísica; não pode se dar onde o estilo é conspurcado pela menor das manchas de puro subjetivismo. A capacidade de suportar o externo que se coagula em obra escrita é rara; em um mundo no qual a sombra da indústria cultural a tudo ameaça cobrir, um universo da banalização e da mediania – do “culto do barato” –, no qual ghostwriters pululam em uma agitação frenética e as palavras transformadas em fogos de artifício se multiplicam infinitamente no espasmódico espetáculo da fatuidade, ser capaz de sentir o peso da palavra que desaba sobre sua própria solidão – esse ato de negação do banal – não é tarefa para pusilânimes. Envolve uma mobilização e uma concentração psíquicas que não se poderia suportar, não houvesse um movente que arranca do escritor até mesmo a consciência de sua real potência: uma voz clama, chama para fora de si aquele que se colocou no limite, mergulha-o na tensa convulsão das margens. O ato de escrever – sempre um kierkegaardiano ato de decidir – é também um ato de loucura.


II
            Mergulhar nas margens, deixar-se cair no abismo marginal – inverter a ordem natural da semântica – é condição de afloramento de uma promessa de vida possível pela agonia das palavras que aborrece toda e qualquer leviandade. Somente lá onde a esperança aparece como o ponto de fuga da realidade e dela, na conjuntura refletida, somente sobrou o rastro, os traços da presença ausente, somente lá a esperança das palavras brilha apesar delas mesmas, ou seja, o escrito brilha apesar do escritor. O que poderia se assemelhar a uma irresponsabilidade, a um ato leviano de entrega, traduz-se, pelas margens nas quais brota, a um pesado ato de hipoteca do sentido. Sentido que paira, às margens, para além da ideia de um conceito remotamente suficiente, contraindo-se num ponto preciso no qual toda antevisão sucumbe e toda confiança apressada naufraga – um ponto que promete apenas e nada mais que a si mesmo.


III
            Desfeita a teia dos encantamentos e sortilégios do caleidoscópio mental no qual as ilusões de segurança se gestam e se retroalimentam, exorcizada a colorida e promitente tentação do “não, ainda não”, sobra o agudo não; o estranho imperativo de uma responsabilidade desproporcional à aparente potência das palavras. Dissolve-se a lógica flácida que encobre a tensão original da solidão. O mundo não é mais a combinação das palavras, e então as palavras podem se transformar em abismo. As margens vibram: dá-se o tempo – e o tempo, medula dessa realidade, mostra-se às margens, atrator de uma reconfiguração estranha, improvável, do sentido. “Não”; essa é a palavra-mãe em cujo útero se agita o ainda não. Porém, agora, um “ainda não” que é a figura mesma da ansiedade da vida, que teve de passar pelas trevas mais absolutas e lá perdeu a capacidade de condescender com o leviano e o irresponsável – e é da vida feita, pelo desabar da ordem, a vida das palavras.


IV


            No rastro da depressiva penumbra: não. A desagregação do real deixa como traço um desencanto: a ilha está deserta. Concha a receber um conteúdo, receptáculo a acolher um novo – a desarticulação da linearidade criou a zona de sombras necessária para que a luz não ofusque o poder das palavras. Essas se dobram sobre si mesmas, vergam sob o próprio peso. De partículas elementares, tornaram-se mensageiras do absoluto – acolhem em seu recôndito o universo infinitamente contraído, a voragem desemboca em uma solidez intragável pelas ofertas de conciliação do banal. Algo resta: um “não”. Esse átomo pesado, esse pedregulho no andor da calmaria, é um germe persistente. Toda palavra real é, essencialmente, um “não” que subsiste. Subsiste no caldo das improbabilidades; desveste-se de quaisquer acusações de inconveniência, pois cria para si sua própria força de gravidade, o espectro palpável de sua própria sobrevivência. Subsiste, até mesmo, à sua própria imponderabilidade lógica.


V

            O não renasce renovado a cada vez em que se depara com a mais remota possibilidade de ocupação do real pela mesquinhez. Seus tecidos mais profundos são a alergia à condescendência. Afirma-se como negatividade radical ante cada detenção do fluxo da realidade; por isso, o não da escrita é seu próprio fluxo de realidade. Nega a promessa de felicidade que consistiria em atenuar a potência de sua lâmina que fende a espessa névoa do indiferenciado. Transforma-se em sua própria consciência, nos vários sentidos desse termo. Sua errância não é desatinada, mas agudamente vigilante de si mesma. Esse pedregulho, não erodível nas ondas suaves de uma realidade que solapa a si mesma a possibilidade do choque, vive do atrito. Tal como a ostra que gera a pérola a partir da irritação, gera no seu interior mais protegido a preciosa semente da sobrevivência desde o trauma que é seu destino congênito e constante.


VI

            No rastro da fatuidade das cores: não. A convulsão dos acontecimentos que significa a persistência do não, ou seja, a persistência sobrevivente da palavra real são fantasmagorias frenéticas que nada têm a ver com os bons espectros derridianos. Não convergem à inquietação da memória, mas a tumultuam com falsas promessas; a energia vital se esvai por entre os panejamentos desencontrados que a euforia delirante projeta no céu. A aspereza do não, que é sua dor e sua solidez, sobrevive às tentativas de digestão do fluxo tresloucado de imagens; sua característica arenosa, mimetizada como insignificância, contrai para o interior de si mesma as germinações de sentido que florescerão, talvez, em terra e tempo menos inóspitos. A ver.


VII – Interregno pictórico

Às vezes, gentes de um outro universo resolvem vir visitar a terra. São, nesse momento, identificadas com morfologias humanas, e sua humildade faz com que assumam inocentemente este papel. Espiam o mundo de todos os dias; sua curiosidade é de teor alegre, mas são vistas como pensativas. A documentação de uma destas visitas – paz dinâmica, simplicidade do acontecer – é dada por Picasso em “Figuras na praia”. Mas as figuras cedem à tristeza, finalmente, pelo que vêem; até enrubescem de vergonha, mas seu rubor é castanho.


VIII – Interregno musical

As grandes obras de arte parecem por vezes excessivamente cruéis. O segundo Concerto para Violino de Prokofiev zomba literalmente de quem quer domesticá-lo, reserva de si para um tempo não dado ao apreciador, finge ofertar o que esconde e esconder o que torna excessiva e insuportavelmente explícito. Obra anti-inercial, ser vivo, festeja continuamente o fato de se subtrair, enquanto organismo unitário e significativo, de toda tentativa feita para aprisioná-lo em um determinado esquema compreensivo; mas oferece ao apreciador esquemas que este nunca compreenderá totalmente da maneira necessária. É um Outro.


IX –

            Como escapar à sedução do conforto? O que vai finalmente significar a palavra derramada para além das bordas da naturalidade? Retome-se o itinerário. Está-se a falar não de um capricho, ou do desabrochar de um talento – e sim de um ato de loucura. Esse ato encapsula a possibilidade mais extrema de uma confiança enviada ao campo da mais extrema das imponderabilidades. A palavra se solidifica, vira pedra resistente, negativa em relação às forças das marés da condescendência. Corta-se o cordão umbilical com o autor, para que a autoria emirja no instante seguinte, o instante do não. Há uma esperança contraída em si mesma que se diz pelo ato paradoxal da escrita sincera. A figura é a de atirar-se no abismo das margens do real, para nele poder penetrar. Será a escrita outra coisa que o louco reafirmar de uma tal esperança?


X

            Se for verdade, como já disse o grande poeta, que “não há diferença essencial entre um poema e um aperto de mãos”, então se infere, pela potência do não, que também é verdade que não há diferença essencial entre a palavra verdadeira e um aperto de mãos com a alteridade, ou seja, com a realidade propriamente dita que advém para além do trauma da corrosão da inflação narcísica que a demiurgia das palavras e seu domínio parecem oferecer. Mas isso não é uma encenação. O autor se perde de si mesmo para que a palavra possa ser, ou ela não será. Ele apenas sobrevive de seus vestígios, dos vestígios de sua sinceridade que podem ser localizados em seus rastros, quer dizer, em seu estilo.


XI

            Escrever é um ato ético por excelência. A distância infinita que permanece entre a observação do abismo e o salto nele é aqui franqueada. O sangue da escrita é a fidelidade à sua própria exigência, e tal exigência se constitui, hiperbolicamente, na exigência do absoluto. Não existe escrita em meios termos; sua única honestidade é sua inteireza. A inteireza da escrita é o desfazer-se de suas silhuetas bem-delineadas. As entranhas da escrita são sua melhor aparência, são sua única aparência possível, a única fiel à mortal ousadia de fazer-se refém daquilo que, exatamente na escrita, aparece como mais propriamente ela mesma. Nenhuma escrita verdadeira passa; ela permanece trancada na voraz garganta do fluxo dos acontecimentos. Cada escrição verdadeira é uma inscrição definitiva. Inscrita no universo dos eventos, nenhuma força será capaz de desinscrever a escrita de sua posição inegociável. Esse é o referendo de sua esperança e a razão de sua confiança.


XII – Excurso testemunhal

“...O Oberkapo do 52. Kommando era um holandês: um gigante de mais de dois metros de altura. Setecentos prisioneiros trabalhavam sob suas ordens e gostavam dele como de um irmão. Ninguém havia sofrido uma agressão de sua parte, nem ouvido uma maldição de sua boca.
                Ele tinha sob seu serviço um jovem criado, um “Pipel”, como era chamado, uma criança com os traços do rosto bem desenhados, que não se adequava ao nosso campo de concentração. (...)
                Um dia voou pelos ares a estação elétrica de Buna. Chamada a Gestapo, concluiu esta por sabotagem. Localizou-se uma pista que conduzia ao bloco do Oberkapo holandês. Lá foi descoberta uma considerável quantidade de armas.
O Oberkapo foi preso. Torturado em vão ao longo de várias semanas, não forneceu nenhum nome. Foi enviado para Auschwitz e lá desapareceu.
                Mas seu ajudante permaneceu em nosso campo de concentração, na prisão. Igualmente torturado, permaneceu ele também calado. A SS condenou-o, juntamente com dois outros prisioneiros que haviam sido encontrado com armas, à morte.
                Certo dia, ao voltar do trabalho, vimos, montadas na praça principal do campo, três forcas. Ao redor, os SS com ameaçadoras armas, a cerimônia normal. Três candidatos à morte, entre os quais o pequeno Pipel, o anjo de olhos tristes.
                Os SS pareciam preocupados, mais inquietos que de costume. Enforcar uma criança na frente de milhares de espectadores não era coisa de pouca monta. O chefe do campo leu a sentença. Todos os olhos estavam dirigidos ao menino. Ele estava cor de cinzas, mas quase quieto, e mordia os lábios. A sombra da forca cobria-o completamente.
                Desta vez, o Lagerkapo negou-se a servir de carrasco. Três SS ocuparam esta posição.
                Os três condenados subiram simultaneamente sobre suas cadeiras. Três pescoços foram envolvidos simultaneamente pelas cordas da forca.
                “Viva a liberdade!”- gritaram os dois adultos.
O menino permaneceu calado.
                ‘Onde está Deus, onde está ele?’, perguntou alguém atrás de mim.
                A um sinal do Lagerchef foram as cadeiras retiradas.
                Fez-se absoluto silêncio em todo o campo. No horizonte, o sol se punha.
                “Retirar bonés!”- gritou o Lagerchef. Sua voz soou baixa. Nós chorávamos.
                “Colocar bonés!”
                Começou então a marcha diante dos executados. Os dois adultos não mais viviam. Suas línguas azuladas pendiam fora da boca. Mas a terceira corda não pendia imóvel: o leve menino ainda vivia...
                Mais de meia hora ficou ele lá pendurado e lutou, frente aos nossos olhos, entre vida e morte. E nós tínhamos de olhá-lo no rosto. Ele vivia ainda, quando passei por ele. Sua língua ainda estava vermelha, seus olhos ainda não estavam apagados.
                Atrás de mim ouço o mesmo homem perguntar:
                ‘Onde está Deus?’
                E ouvi uma voz atrás de mim responder:
                “Lá - lá está ele, na forca’.
                Nesta noite, a sopa teve gosto de cadáver.”[1]


XIII

            A essência da escrita é o testemunho de sua honestidade, do ato ético no qual escrever se constitui; o resto se dilui em circunstância e é devorado pelo tempo. O “não” da escrita é seu presente inquieto, que frutifica para além dele e encontra o tempo. A escrita verdadeira entrega-se a si mesma – e a nada mais – à imolação que a incerteza abissal e a angústia do não-consumado significam sempre de novo, cada vez que coincidem com seu sentido. Mas, também, a escrita verdadeira encontra-se a si mesma no radical ato ético que significa voltar-se inteiramente para fora de si mesma, com a finalidade confessada de encontrar a si mesma. A potência da linguagem somente assume sentido no despojamento obsessivo do que a poderia tornar serva de um interesse de encobrimento: um ato ético não suporta a sinuosidade postergatória do real e a expulsa aos confins da insignificância à qual pertence. A angústia do menino leve demais para morrer na ponta da corda dos carrascos, pesado demais para viver pelo seu próprio peso ontológico do qual a ética está ausente, é a angústia da palavra falsificada, da construção postiça, da escrita indecente. A noite que cai é a permanência de uma gravidade que relembra, à escrita, que ela não pertence à vulgaridade.
            Coragem, eis a palavra-mãe; ela sela a garrafa na qual o escritor honesto, num ato de loucura, encerrou todas as suas esperanças. Sua medula é a eticidade de um gesto que, por sua própria substância, subsiste e se impõe às ardilosas artimanhas da conivência com o insuportável. E “o resto é silêncio”.


[1] WIESEL. Elie. “Die Nacht zu begraben, Elisha” - Sonderausgabe aus Anlass der Verleihung des Nobelfriedenspreises 1986, 1986, Bechtle Verlag (tradução nossa).